segunda-feira, 9 de julho de 2007

Remake

Todos os dias o mesmo espetáculo.
Nobre espectador deitado em sua cama. Assistia a mesma peça pela milésima vez. Uma só personagem. A sempre mesma atriz. A parede branca, palco, iluminada pela luz difusa da tarde. Tarde que morria pelas fretas da veneziana semi-aberta. O palco esperava a estrela. O público-ele esperava a estrela.
Podia ouvir o som das milhares de gotas de água em fuga pelo ar. Fechando os olhos, podia vê-las precipitando-se ferozmente pela pele alva... límpida... lúdica. Soou em sua cabea o imaginário sinal de um minuto. Podia ouvir a maciez da toalha passeando pelos pêlos... suavemente... um sussurro... um cicio... um murmúrio intermitente.
Sinal de trinta segundos.
As pernas movimentam-se pela parede branca. Tela de cinema. Cortina. Palco. Nas costas, ainda algumas gotas seguiam o caminho delineado pela espinha. Tortuoso, desejado, delicioso caminho. Os cabelos negros derramavam-se, ondas sobre o branco. A brisa atrevida causava milimétricos arrepios, realçados pela tênue luz de um morredouro sol.
Os seios (Fuji, Andes, Everest!) desafiavam-no a 105 impossíveis graus. Seios lanças. Curare. Cicuta. Os olhos descuidados vagavam pelo espelho, levemente preocupados com sabe-se lá o quê.
Como sempre, ela nem o via... A nobre cegueira do contraste entre a luz dos holofotes e o escuro da platéia.
De repente, fim do espetáculo. As cortinas se fecham na forma de um vestido preto... fendas... decotes... promessas.
Ele continuará ali, pelas próximas vinte e quatro horas. Estático. Imóvel, aguardando a próxima sessão. Não sente fome ou frio ou sede. Não se cansa nem se exaspera.
Vinda do alto, uma voz lhe chama. Banhada de luz. Banhada de paz. Como no dia do acidente. Pela milésima vez nesses últimos três anos. Pela milésima vez ele ignora.
Ali é seu lugar. Nessa cama. Nesse quarto. Em frente a essa parede. Em frente ao seu passado, que não mais voltará. Em frente ao seu futuro, que nunca existirá...

4 comentários:

Saramar disse...

Quanta tristeza, meu Deus!
A beleza do texto fica meio soterrada diante deste trágico final... drama, drama.

beijos

Claudia Menezes disse...

Obrigada pelo elogio do meu blogger e pela sua visita.. Gostei muito do seu blogger tb .. Est� legal os textos.. Beijins e visite sempre o meu blogger..

Rafael disse...

gosto bastante do seu estilo.
xD

Juliana Pestana disse...

Maravilhoso, Moacir. Cada vez que venho aqui me surpreendo mais...

O texto é tão gostoso de ler que continuaria por páginassssssss...
e o final só engrandeceu a prosa.

Bjos meus.

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