Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Ai

O ai é engraçado...
Curto, cortante, rasgando o ar!
Quando vem sozinho, já se sabe: é dor curta, coisa pouca... ferrão de abelha, picada de agulha, topada de dedo em pedra pontuda. Quase sempre vem depois um palavrão.
Em dupla, dito de forma meio suspirada, denota dorzinhas inocentes: alguém que não apareceu, uma carta que não veio, uma saudadezinha-bicho-do-pé.
Em trio, significa irritação, impaciência. Sinal fechado, leite derramado, fila que não anda.
Às vezes são ditos repetidamente. Dedo preso na porta, choque em tomada, pele em coisa quente. Costuma parar logo que cessa a causa.
Mas o ai é um bichinho covarde. Ele some quando a dor é grande.
As dores maiores, as dores de verdade, aquelas que abalam vagarosamente o coração e a mente, essas são quase sempre silenciosas. Dores de amor, de morte, de doença crônica não têm ais!
Elas apenas dóem, doídas, caladas. E não acabam nunca.
A única companhia que conseguem são as lágrimas mudas e resignadas.

Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Estocolmo

Cinquenta e dois dias hoje.
Sem banho. Sem cortador de unha. Sem creme dental. Sem um pente sequer.
Comida, só duas vezes ao dia. Ao acordar, um café ralo e sem açúcar acompanhado de um pão duro sem manteiga. No meio da tarde, uma gosma feita sabe-se lá de quê. Água regrada. Escuro durante todo o tempo.
Nenhuma janela, nenhuma lâmpada. O mofo úmido brotando nas paredes e o cheiro de seus próprios excrementos se acumulando no buraco do canto da cela. Pelo barulho, já estava pra mais de meio.
Ninguém lhe dizia nada. Não sabia o que queriam. Rico, não era. Muito menos importante ou influente. Pra dizer a verdade, não valia o esforço.
Cinquenta e dois dias. Ou cinquenta e três. Ou cinquenta e um. Não sabia bem. Se baseava no barulho que faziam durante as trocas de turno. E no ronco do guarda que ficava à noite.
Pensara em se suicidar, mas não havia nada que pudesse utilizar. Chão de cimento, paredes de reboco, nem uma aresta ou farpa. Pede a Deus todos os dias pela sua morte. Mas Ele com certeza já se esqueceu de sua existência.
Amanhã vai botar seu plano improvisado em prática. Vai se jogar no buraco. De ponta. Deve ter uns quarenta centímetros de diâmetro. Assim será impossível se virar. Impossível se salvar. Vai morrer afogado na própria merda. Um destino merecido pra quem, como ele, foi um merda a vida inteira.
Só uma coisa lhe incomoda: não saber quem ordenou esse sequestro. A única pessoa que algum dia fez algo pensando nele. Que se dispôs a dispender tempo, dinheiro e neurônios com vistas à sua pessoa.
Queria ao menos saber seu nome. E o porquê.
E agradecer.

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Melancolia

Vista da janela do avião, a cidade não se parecia com a miríade de ruas e carros e pessoas a que estava acostumado. Sua superfície estendia-se perpendicularmente à estrada, como um rasgo no tecido verde da terra.
Algumas poucas nuvens alojaram-se confortavelmente em algum ponto entre seu olhar e as árvores lá embaixo. Pessoas não as viu, não o permitia a distância entre a barriga do aeroplano e as cabeças dos homenzitos no solo. Carros pôde identificar um ou outro, apressados pontos percorrendo retas e curvas no sentido longitudinal do mapa impresso no chão.
Não era exatamente grande sua cidade. Alguns poucos mil habitantes. Menos um agora. Não que fizesse diferença. O que é um em vinte mil? Mesmo que vinte mil seja pouco pra uma cidade, e o apenas um seja muito pra quem se vê obrigado a carregar a si mesmo desde o dia em que nasceu.
Agora tudo era apenas nuvens e céu, e seu olhar se perdeu no horizonte. Talvez voltasse, talvez não. Só não queria essas lágrimas que teimavam em surgir.

Domingo, 6 de Abril de 2008

Flerte

A vida, naquele momento carecendo de graça e sentido, encontrou-se no desenho daquele sorriso.
Invisíveis aos olhos de toda a gente, os olhares se encontraram. E desrespeitando a lei não escrita dos primeiros olhares, demoraram-se mais que o um-segundo protocolar. E foi ali que se perderam.
Talvez a distância exata entre os corpos naquele específico minuto, talvez a densidade do ar matutino ou a intensidade da solidão na pele de cada um. Talvez - quem sabe? - um instante a mais ou a menos não os encontrassem naquela determinada posição, naquele ângulo de visão, naquela particualr incidência da luz. Talvez. Mas foi assim que aconteceu.
Ele estava de passagem. Não se viram nunca mais. Mas há um certo momento em que as memórias se encontram, mesmo que eles pensem que estão sozinhos. Não estão. Nunca mais.

Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Check-in

Na saleta de espera do aeroporto, bagagens se acumulavam. Bagagens que ninguém reclamava. Se amontoavam pelos cantos, à espera. As mais antigas com sua camada de poeira. As mais novas com o brilho desconfiado dos sorrisos incompletos.
A moça dos cabelos azuis era a única no ambiente. E examinava minuciosamente cada uma das malas. Procurava por cicatrizes, defeitos de nascença, doenças degenerativas e males congênitos.
Nunca se dava por satisfeita. Dia após dia, de cidade em cidade.
Naquela manhã, um sorriso lhe corou a face. Escolheu uma que lhe pareceu adequada. Não era pesada. Feia. Mas coube perfeitamente em seu delicado dia-a-dia.
Agora é feliz, e os aeroportos fecharam-se, devido à cerração.

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

Reflexão

Eu disse a ele!
Não vem com essa história não! Nada é tão definitivo que não possa ser desfeito. Basta a gente querer. E mais que isso, tomar uma atitude. Umazinha só!
E ele me veio novamente com aquele papo de filho-responsabilidade-pai-mãe-sociedade-quando-der-eu-resolvo...
Mas na hora de meter a vara na minha bocetinha ele esquece isso tudo, né???
Sei!

Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Domingo

Se ao menos falassem, as gotas de chuva.
Alguém me disse uma vez que conversam, as danadinhas. Alguém cheio de poesia. Não me lembro quem. Mas eu nunca entendi.
Deve ser porque sou amigo do Sol. Não sei a linguagem da chuva.
Uma amiga me disse uma vez que só entende a liguagem da Lua. Ah, a Lua sabe das coisas. A lua tem uma conversa toda feita de silêncios. Ela sabe, a velha Lua, que essa é a melhor música pros namorados.

Enquanto isso, chovo raios de sol enluarados.











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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Feriado

Finalmente!
Seu sonho enfim se realizava. Uma praia de nudismo. Sonho de menina, desde a longínqua cidadezinha do interior pernambucano onde nascera.
Seu pai não aprovara. "Coisa de mulher vagabunda". Sua mãe morrera de vontade de acompanhá-la. E lá estava ela. O nível de curiosidade e excitação estava a mil.
...
Quinze minutos depois, só vontade de ir embora. Tudo muito normal, exceto o fato de estarem todos nus.

E o mais estranho é que ninguém ali se mostrava de verdade. Todos escondidos embaixo de sua nudez.

Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Anestesia

Sabe essa foto, doutor? Sou eu na minha adolescência. Quando eu tinha 17 anos na longínqua cidade de Butantã da Serra, no Maranhão. Eu comia calango e bebia água do açude. Tempos difíceis aqueles.
Esse terno que eu estou vestindo na foto custou o olho direito da minha irmã mais nova, Jurelina. Hoje, com nossa situação melhor, comprei um olho de vidro pra ela. Ficou bonita a bichinha, arrumou até marido depois do olho novo.
Mas valeu a pena o sacrifíco, tenho até hoje o terno, que uso em ocasiões especiais. Usei mesmo anteontem, no enterro do meu primo Teobaldo, Deus o tenha. Famoso e querido Teobaldo, também conhecido como Come-Piolho. Cabra bom aquele. Comia os piolhos dele e os meus, isso é que era amigo.
Uma certa vez Teobaldo se encontrou com Jurelina e se encantou, visse? Olho no olho (ele era cego do olho direito e ela só tinha o esquerdo). Mão na mão. Quase que vira coisa na coisa. Mas antes disso chegou meu pai e meteu o pé no peito do sem-vergonha. Teobaldo quase morreu sem fôlego. Tempo bom aquele.
Hoje vivo vida de rei. DVD, microondas e TV 29 polegadas. Um Monza 91. E uma mulher muito da ajeitada. Mas sempre que eu olho essa foto, seu doutor, me dá vontade de chorar. Porque dentro de mim ainda mora aquele molequinho cabeçudo das pernas finas da Rua Paraíso em Butantã da Serra.
Agora pode arrancar o siso, doutor. A bochecha já tá dormente.

Sábado, 17 de Novembro de 2007

Rodapé

Sentou-se em sua cama.
Pousou a cabeça entre as mãos e chorou. Como nunca havia chorado antes. Como nunca nesses trinta e tantos anos de vida.
A decadência começara pouco a pouco. Quando nascera. Acreditava piamente que o auge da existência de um ser humano era o nascimento. Daí pra frente, tudo o mais é morte.
A sua se acentuara há dez anos atrás, quando sua mulher o abandonara. Sem explicações. Também inexplicavelmente, seu irmão mais velho desaparecera. Exatamente no mesmo dia. As más línguas se deliciaram.
A bebedeira foi inevitável. Anos e anos. Um dia seu pai veio e levou seu filho embora. Ele não se importou. Os amigos, já escassos, se afastaram. Não suportavam mais suas crises histéricas de auto-piedade. Nem sua insuportável tendência de desaparecer na hora de pagar a conta.
As mulheres, que a princípio se encantavam com seu jeito foda-se de ser, logo descobriram ser um embuste. Ele não dizia foda-se ao mundo... dizia foda-se a si mesmo. E a quem estava ao seu lado.
A única coisa que lhe restara era seu emprego. Escritor de obituários.
Mas hoje estava sentado em sua cama, chorando. Em suas mãos, um nome. Causa mortis: suicídio. E ele não conseguia escrever a porra do obituário. Depois de vinte anos fazendo a mesma merda, não conseguia escrever a porra do obituário.
Olhou novamente o papel através das lágrimas.
Manoel Batista de Araújo.
Seu nome de batismo.

Sábado, 3 de Novembro de 2007

Al Dente

A panela no fogo esperava.
Azeite de oliva, alho, sal e pimenta. Lágrimas de cebola ainda em seus olhos. Lágrimas não faltavam, desde que ele se fora.
O cheiro invadiu cada espaço vazio do apartamento. Imiscuiu-se nas fibras dos móveis, na espuma dos travesseiros, nos póros de seu corpo. O cheiro de comida. O cheiro dele.
Movimentos circulares, misturando aos poucos os pedaços de alho à textura uniforme e suave do sal. Movimentos como o de seus quadris, misturando-se à pele morena e suada que nunca mais tocaria.
Água. A temperatura cai bruscamente. No choque térmico, milhões de moléculas se quebram, misturando tempero, água e óleo. O que não se mistura passa a viver intimamente ligado, desconhecendo suas diferenças. Até que venha algo roubar-lhes a proximidade. Derramou na panela o arroz. Outra mulher. O que ela sempre temeu.
Alquimia, química... Tudo muito delicado. Equilíbrio instável. Um pouco a mais de tempero, um pouco menos de carinho. Rompe-se o elo. O delicioso torna-se intragável.
Senta-se no chão e chora. De novo. O cheiro de queimado não mais importa. Deixa a chama se apagar sozinha. Sem amor, sem jantar.

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Espera

O paraíso ali estava, em forma de alvo sorriso nu...
Um campo de trigo vicejava sobre a neve morna.
Um sorriso de um milhão de dentes iluminava a penumbra, fazendo o tempo parar por alguns segundos, antes de acelerar rumo à hora limite.
Ele, também nu, se calou. Não havia palavras possíveis ante o inimaginável. A impossibilidade do real o preocupou, mas não pôde evitar no pensamento a palavra felicidade.
Quis mergulhar em sua fonte, banhar-se em sua cachoeira, beber e comer e gozar de cada gota. Mas não hoje. Não ainda.
Agora espera. Faz com que a ausência se torne saudade. E sonha desperto.

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Jolene (stolen by cake)

Jolene acordou. Pela 6300ª vez em sua vida. E ela nem mesmo sabia como pronunciar esse ordinal. Destrancou seu quarto. E sua vida. Recostou-se à veneziana de madeira, fina como o tecido de sua existência. Como o tecido de qualquer existência. O calor do sol matutino atravessou a camada melíflua de camisola e tocou sua pele ainda adormecida. Sentiu-se feliz, como em todas as 6300 manhãs de sua vida.
Sentou-se em frente ao espelho. Seus longos cabelos negros espalhavam-se em um fluxo contínuo, deslizando em direção ao centro da Terra. Gravidade. Acariciou-os lentamente. Toda a paciência do mundo. Nenhum pente jamais os tocara. Apenas seus dedos dançavam em seu piso macio.
Despiu-se da toalha úmida. Dobrou-a cuidadosamente, carinho.
E eu quero jogá-la em sua cama ainda desarrumada. Quero esculpir seu rosto em chumbo. E toda vez que meu rosto encontra seus cabelos, o cheiro. Creme rinse e tabaco. Sempre ali, o cheiro. Sempre em mim, o cheiro.
Jolene ouviu o ronco irregular de seu pai. E a porta aberta esperando. E ela sabia... havia algo mais em algum lugar...
Jolene ouviu o canto da floresta. O canto das coisas da floresta. Abriu a porta a pedido da brisa. Calmamente. Adentrou a noite.
E eu quero lançá-la ao espaço. A quero foguete. Nave. Quero fazer tudo o que for preciso. Pois toda vez que meu rosto encontra seus cabelos, o cheiro. Creme rinse e tabaco. Sempre ali, o cheiro. Sempre em mim, o cheiro.

Sábado, 22 de Setembro de 2007

Conto Navegação-Labirinto

moacircaetano & czarina

Capítulo 1

Capítulo 2

3.

Não ouvia o que ele dizia. Apenas via o matraquear, o abre-fecha daquela boca malcheirosa, os respingos de saliva viajando até alcançarem o tampo de vidro. Uma névoa me cobria os ouvidos, impedindo-me de entender ao menos uma simples palavra.
Enquanto ele falava, eu só conseguia ouvir os gemidos da vagabunda da Suzana. Só podia ouvir o barulho molhado do meu pau se enfiando em cada orifício daquela vadia.
Tentei deixá-la dezenas de vezes, mas era impossível. Eu era viciado naquele cheiro. O mesmo cheiro que invadiu minhas narinas enquanto o idiota vociferava o mais alto possível, de forma que seus berros ultrapassassem a fina camada de divisória que nos separava do restante do escritório. Olhos curiosos e sádicos perfuravam minhas costas.
Saí do transe em que me encontrava a tempo de ouvir a frase final: “Hoje você vai ficar até mais tarde consertando a cagada que você fez, seu merda!”.
Saí no corredor e, como era usual, todos fingiam que nada havia acontecido. Parei na copa de novo. Fodido; fodido e meio! Bebi mais um pouquinho do café de Dona Isidora. O gosto de sangue em minha boca desapareceu por alguns segundos, mas logo voltou.
Sentei-me em meu cubículo. Um email da vagabunda: “Quero que você me coma na cama do César hoje. O corno me ligou e disse que vai ficar até tarde vigiando um merdinha qualquer no escritório”.
Imediatamente peguei meu casaco sem me despedir de ninguém e saí rua afora.
Virando a rua, entrei na padaria Pão D’ouro, ruim, mas com ótimos preços, o que justifica o apelido aqui no bairro, Pão D’uro. Sentei no balcão, tirei os óculos escuros e pedi uma média e um queijo quente. Foi só quando o lanche chegou que me ocorreu que não estava com fome. Lembrei do pedaço de pizza que comi antes de sair. A pizza do dia anterior, pedida com destino certo: ser devorada durante o filme de ação que seria exibido no Tela Quente.
Mal comera o primeiro pedaço, o telefone tocou.


Epílogo

Sábado, 15 de Setembro de 2007

Última Vez

Seria a última vez. As crises de consciência não o deixavam dormir.
Seria a última vez naquela mesma cama, no sempre mesmo quarto, no mesmo sempre sujo desejo...
Ontem acordou e olhou sua filha. Treze anos. E pela primeira vez na vida, o desejo por ela nasceu dentro dele. Se horrorizou. Mas ainda assim ficou ali por uns quinze minutos. Até que a luz do dia irrompeu o ar, tornando perigosa sua movimentação incessante. Esvaziou seu corpo. Sua alma foi junto.
Naquele momento soube que teria que parar com tudo aquilo. Parar com as tardes furtivas, com o segundo andar escondido entre os becos, com os presentes cor-de-rosa e os duzentos reais a cada semana. Parar definitivamente com o medo de ser pêgo, o medo da justiça dos homens e da justiça de Deus. Esta seria a última vez, jurou a si mesmo.
Subiu as escadas. Seu pau a ponto de estourar. Podia quase sentir o cheiro de pele e suor. Cheiro de juventude, de inocência. Cheiro de infância.
Abriu a porta. No contraluz, não distinguia rosto ou cor. Viu apenas a silhueta recortada... e ouviu o suspiro da menina deitada na cama. Fechou a porta e apagou a luz. Escuridão total. Assim a última não teria um rosto, mas sim o rosto de todas as que ali havia encontrado.
Já nu, encostou suas mãos no corpo trêmulo. Ao seu toque, ela desfaleceu. Desesperado, acendeu a luz.
Sem sentidos, sua filha se estendia entre os lençóis vagabundos.


*

Pra Carol.

Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Ontem

Equilibrava-se diariamente entre a tesão e a razão.
Olhava saias balouçantes, bocas e pernas, bundas e seios, exuberâncias e singelezas em suas mais diversas acepções.
Morenas, loiras, ruivas, negras. Bonitas, feias, gordas e magras. Meninas e coroas, alunas e prefessoras.
Se consideraria um tarado, não fosse a carga de negatividade implícita em tal palavra. Apaixonado, isso sim. Apaixonado por todas as mulheres do mundo.
Alguns, irônicos, diriam que quem ama a todas não ama a nenhuma. Nada poderia estar mais distante da verdade. Amava a todas, e amava em todas aquele mínimo quase imperceptível que faz de cada uma delas especial em meio a tantas. Detalhes ínfimos, que apenas ele enxergava. Um meneio de cabeça, uma respiração hesitante, uma palavra mal colocada, um sorriso entrecortante. Aquele único momento em que eram singularmente únicas.
Ontem morreu.
Carregava consigo todas as lembranças de cada mulher com quem cruzara.
A essência de cada uma delas dele se desprendeu, e uniram-se em uma brisa suave, que passeou por cada calçada da cidade antes de desaparecer em direção ao espaço. E, por um segundo, todas elas foram felizes, sem saber exatamente o porquê.

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Coisa de Homem

Mulher de amigo meu pra mim é homem!
Máxima que aprendi com meu pai. Com mulher de amigo não se mexe. Questão de honra. Fale mal dos outros, seja mal-educado, não respeite os mais velhos, mate, roube, não ame a Deus sobre todas as coisas, mas... nunca, nunca deseje a mulher de um amigo.
Nunca fiz isso em toda minha vida. Nunca. Quando um amigo me apresenta sua namorada ou esposa, pra mim é como se ela fosse um macho barbudo. Pensar em algo íntimo me causa repugnância.
Mesmo quando é ela. Mesmo quando é aquela desgraçada. Mesmo quando me lembro daqueles olhos negros profundos e perturbadores. Mesmo quando vejo em minha frente aquela boca úmida, repelta de desejos e promessas proibidas. Mesmo quando ela surge com aquele perfume e faz com que todo o resto da existência não seja mais que um simples sopro. Mesmo quando ela diz meu nome com aquela voz que se prolonga meus sonhos adentro. Mesmo quando ela passa e me viro pra observar seu caminhar em movimentos bamboleantes.
Juro, nem olho pra mulher de amigo meu! Mesmo quando é aquela vagabunda. Que me diz com olhos doces coisas que uma boca nunca usaria dizer. Que me nocauteia com seu silêncio cheio de insinuações e convites. Que não olha pra mim enquanto sinto sua atração por mim me queimando em brasas. Nunca, nunca a desejei. Nem mesmo a olhei, juro por Deus.
É...
Mulher de amigo meu pra mim é homem! E nessas horas eu sou viado!

Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Maria Maria

Ave Maria, Gratia Plena, Dominus Tecum.
Nascera Maria. Nascera mulher. Quando deu seu primeiro grito nesse mundo, o médico decretou: "É uma menina"!
Sentença cruel essa...
Melhor dizer logo em palavras claras: "Sua filha sofrerá a vida inteira, será sempre mal-remunerada, sofrerá preconceitos, será menosprezada, muitas vezes ridicularizada e ainda assim terá uma missão dura e inglória: perpetuar a espécie humana através da dor e da memória".

Benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui, Iesus.
Crescera em uma favela imunda, lutando contra todo tipo de adversidade: pai bêbado, mãe ausente, irmão bandido, tios... bem, melhor esquecer!
Aos quinze, não havia outra alternativa: ou se prostituía ou virava mulher de traficante. O que no fundo era a mesma coisa. Preferiu ser puta de um homem só. Sem saber se amanhã ele estaria lá. Sem saber se amanhã ela estaria lá.
Sem querer, pôs uma criança no mundo. Mais um. Pra morrer ou virar bandido.

Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus...
Rezara dia e noite pra algum milagre acontecer. Pra seu filho vingar. Pra seu homem não morrer. Mas Deus não ouve. Deus é surdo. Deus não existe.

...nunc, et in hora mortis nostrae.
Aos vinte, não tinha mais marido nem filho. Nem vida que valesse a pena. Se entregou ao meretrício. Sem camisinha e sem esperança. Aos vinte e um, já não era mais Maria. Era poeira vagando entre os jardins. Enfim encontrara sua paz.

Amen.

Sábado, 14 de Julho de 2007

Convite

Hora de soprar as velinhas!
Não escrevera um livro. O que havia de si espalhado pelo mundo renderia uns vinte, ou mesmo mais... mas nunca teve a coragem ou a iniciativa.
Não plantara nem uma árvore. Nem mesmo o feijãozinho dentro do vidro de maionese.
Filhos? Ha!
Não restaria absolutamente nada. Talvez seu nome em um obituário, que duraria enquanto o papel não se desfizesse em pó.
Havia a memória dos que o amavam. Mas a memória, todos sabem, é coisa volátil, volúvel. Bastaria um novo amor, um novo filho, um novo amigo... E mesmo o tecido humano, guardião das memórias boas e más, tem seu prazo de validade. Curto, por sinal.
Por isso mesmo não iria sozinho. Quem pode saber como é a morte? Talvez seja um vagão sem portas e sem destino. Quem sabe um trem que vague por todo o sempre...?
Levaria todos os que ama consigo. E viveriam todos em festa, bailando e bebendo pelos trilhos da eternidade.
Seu aniversário, a data perfeita. Soprou a velinha.
Da cozinha, veio o som da explosão.

Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Remake

Todos os dias o mesmo espetáculo.
Nobre espectador deitado em sua cama. Assistia a mesma peça pela milésima vez. Uma só personagem. A sempre mesma atriz. A parede branca, palco, iluminada pela luz difusa da tarde. Tarde que morria pelas fretas da veneziana semi-aberta. O palco esperava a estrela. O público-ele esperava a estrela.
Podia ouvir o som das milhares de gotas de água em fuga pelo ar. Fechando os olhos, podia vê-las precipitando-se ferozmente pela pele alva... límpida... lúdica. Soou em sua cabea o imaginário sinal de um minuto. Podia ouvir a maciez da toalha passeando pelos pêlos... suavemente... um sussurro... um cicio... um murmúrio intermitente.
Sinal de trinta segundos.
As pernas movimentam-se pela parede branca. Tela de cinema. Cortina. Palco. Nas costas, ainda algumas gotas seguiam o caminho delineado pela espinha. Tortuoso, desejado, delicioso caminho. Os cabelos negros derramavam-se, ondas sobre o branco. A brisa atrevida causava milimétricos arrepios, realçados pela tênue luz de um morredouro sol.
Os seios (Fuji, Andes, Everest!) desafiavam-no a 105 impossíveis graus. Seios lanças. Curare. Cicuta. Os olhos descuidados vagavam pelo espelho, levemente preocupados com sabe-se lá o quê.
Como sempre, ela nem o via... A nobre cegueira do contraste entre a luz dos holofotes e o escuro da platéia.
De repente, fim do espetáculo. As cortinas se fecham na forma de um vestido preto... fendas... decotes... promessas.
Ele continuará ali, pelas próximas vinte e quatro horas. Estático. Imóvel, aguardando a próxima sessão. Não sente fome ou frio ou sede. Não se cansa nem se exaspera.
Vinda do alto, uma voz lhe chama. Banhada de luz. Banhada de paz. Como no dia do acidente. Pela milésima vez nesses últimos três anos. Pela milésima vez ele ignora.
Ali é seu lugar. Nessa cama. Nesse quarto. Em frente a essa parede. Em frente ao seu passado, que não mais voltará. Em frente ao seu futuro, que nunca existirá...

Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

UNFAIRY TALE

Tinha nojo de homens.
Não que não gostasse... gostava... e muito! Gostava do jogo de sedução masculino. Adorava a mente infantil dos homens. Gostava da agitação suada de seus movimentos. De sua necessidade de aceitação. De sua sede de poder. E de sua quase sempre inabilidade com os sentimentos mais profundos.
Mas simplesmente tinha nojo!
Não, não era lésbica...
Não lhe agradava o toque macio da pele feminina, nem a clarividência tão típica das mulheres. Não sonhava com os beijos e abraços de bocas mulherescas. Definitivamente não era lésbica.
E por ter nojo de homem - e não desejar de maneira alguma uma mulher - vivia sozinha.
Nunca namorara. Nunca trocara carinhos de adolescente. E assim tinha aprendido a viver. Como alguém a quem tivessem extirpado as amígdalas, ou o apêndice. Na verdade era um pouco mais desagradável... como se tivesse nascido sem dentes! Isso! Péssimo, mas... acostuma-se.
Um dia se apaixonou. O homem perfeito! Poesias, flores e flertes. Abria a porta do carro. Ligava todos os dias. Olhava-a com um olhar infinito de promessas e desejos. Mas tudo na medida certa. Nada ali sobrava ou faltava. Nunca se excedia. Nunca se esquecia.Paciente. Podia esperar por horas numa fila, e ainda assim exibir um sorriso apaixonado. Amigo. Companheiro. E na cama, um furacão!
Primeira vez. Primeiro beijo. Primeiro toque. Estremeceu. Um abraço... seu estômago embrulhou-se. Os lábios se roçaram. Vomitou.
Ele ainda entendeu, apesar do desagradável da situação. Disse que lhe desejava sorte. Disse que estaria sempre à espera. Disse um respeitoso "Eu te amo". E ela chorou.
Ao chegar em casa, cortou os pulsos. E morreu pensando nele.

Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

BREVE

Ela olhou novamente...
Não acreditou!
Ele ali estava, depois de anos!
Lembrava ainda o calor do toque daquelas mãos em seu corpo. Nunca mais sentira algo igual. E os beijos, os abraços, as noites e dias que não se repetiram...
Quase não envelhecera. Apenas os cabelos brancos o traíam. Mas o olhar era ainda o mesmo, direto e sedento. Olhar que sempre a fazia baixar os olhos, em rubor.
Súbito, lembrou-se da imagem que havia visto pela manhã no espelho. O tempo não fora tão bom pra ela. Nem o tempo nem a vida. Muito menos a solidão.
Ele nem chegou a vê-la. Não estava sozinho. Uma garota de uns vinte e cinco anos saiu da loja de conveniências e se pendurou em seu braço. Por um breve momento, pensou ser uma filha. O beijo na boca, apaixonado, desfez a ilusão.
Ele nem chegou a vê-la. Melhor assim.
E enquanto ele se afastava em direção ao estacionamento, ela correu pra casa pra chorar pensando nele. Como havia feito nos últimos dezesseis anos.

Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Abismo

Ele sempre soube... o abismo estava bem ali!
Ele sempre soube também que havia campos verdejantes à sua espera, cidades oníricas, sociedades utópicas... filas e filas de pessoas amadas e amantes dedicadas.
Mas ele era o abismo!
Ontem ele quase caiu!
Agora paira entre o vazio e a existência.

Quarta-feira, 30 de Maio de 2007

Apenas mais um dia...

A situação era insustentável!
Ao meu lado, o suor do preto já havia formado uma poça no chão. Suor ruim. Misturava-se à terra, desenhando na lama o meu destino.
Na sua mão, o revólver tremia. Esses eram os que me metiam medo. Os que tremem. Amadores. Não têm controle de seus próprios nervos. Não têm controle de si mesmos. Imprevisíveis.
Eu podia sentir o tremor do revólver na minha têmpora direita. Droga. Aquele era meu lado ruim. Canhoto.
Na cadeira à minha frente, o loiro sorria um sorriso chapado. Mal conseguia se manter acordado. Amadores.
Pesei bem a situação. Eu conseguiria derrubar o loiro azedo com um chute na boca, desfazendo aquele sorriso insuportável. Mas a bala que se encontrava dentro da arma do preto me estouraria os miolos. Não gostei da idéia.
Eu poderia ainda tentar desarmar o preto antes que a mão trêmula disparasse o gatilho. Mas o filhadaputa do loiro estava com a mão dentro do blusão de couro. E eu não tinha a menor idéia do que havia lá dentro.
De qualquer forma, eu morreria se não fizesse nada. E eu não quero morrer. Disso tenho certeza. Não que eu não mereça. Se alguém por aqui merece morrer, esse sou eu. Meu menor pecado é assassinato. O maior? Não queira saber.
Num golpe rápido e preciso, me abaixei enquanto minha mão esquerda se dirigia ao estômago do preto. A arma disparou. Um segundo depois do necessário. Amadores.
Quando o estampido chegou aos meus ouvidos, meu punho já havia atingido o alvo. Senti alguma coisa se rompendo lá dentro. Meu pai sempre me falava que meu soco era poderoso. Verdade.
Nem precisei de outro golpe. O preto caiu sobre seu suor no chão e ali mesmo ficou.
Quando me recompus, o loiro já estava em pé. Seu sorriso tinha desaparecido do rosto. Isso me fez feliz. Mas minha felicidade não durou muito. Me lembrei da mão dentro do blusão.
Bem... morto eu já estava. Estou morto desde que nasci. Condenado por um tribunal divino. Minha pena foi nascer no inferno. Morto não tem medo.
Disse a ele: se for me matar, mata logo, desgraçado. senão vai morrer no meu lugar!
Ele tirou a mão de dentro do blusão. Um canivete. Amadores.
Antes de me movimentar, já pude sentir o cheiro da morte do desgraçado...

Quarta-feira, 16 de Maio de 2007

Enseñanza

Formigas.
Carregam sua carga pra lá e pra cá, sem perguntar a ninguém o porquê. Topam uma com a outra, dão só um beijinho de esquimó e seguem em frente. Não têm tempo pra crises existenciais, mal-entendidos e frustrações. Se guiam pelo cheiro deixado pelas que vieram antes delas. Possuem um cronômetro interno que marca o tempo com precisão de relógio atômico.
Vivem aos milhares, e não dormem nunca. Vivem a vida para sua rainha. Não sabem o que é ser feliz, mas também não sabem o que é ser infeliz.
Vivem em selvas, em relvas, em bosques, mas são capazes de se instalar em paredes de concreto, pisos cerâmicos e asfalto. Não morrem nunca, pois não são uma. São uma coletividade. Um grande organismo onde uma pequena célula morta é rapidamente substituída. Formigas são infinitas.
Ontem uma olhou pra mim e não entendeu o que é ser triste. Tentei explicar, mas ela me olhava com seus olhos inexpressivos, e nada dizia. Ao fim de trinta segundos, me abandonou. Já tinha perdido tempo demais com coisas minúsculas. Minúsculo, o ser humano; encarcerado em seu próprio corpo.
Tentei seguí-la, mas ela se enfiou em uma fissura do piso.
Levantei-me e tomei o rumo de casa. No céu, o dia - covarde - fugia da noite.




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Domingo, 13 de Maio de 2007

Liberdade

Vinte e cinco anos. Algumas rugas prematuras. Um punhado de cabelos brancos. Uma vida inteira desperdiçada. E esperança nenhuma.
Nas mãos, sangue de todos os tipos e fatores. Sangue de culpados e inocentes. Sangue de homens e mulheres. De velhos e crianças. Almas se debatiam entre as pontas dos seus dedos. Na mão esquerda, o peso da arma.

A possibilidade do fim o assustava. Mas não tanto quanto o medo de continuar vivendo. Aprendera no primário: menos vezes menos é igual a mais. Mentira! Na vida, tudo é sempre menos!
Olhou para a porta dos fundos. O buraco da fechadura lhe encarava, com seu dedo de luz acusador.
O indicador moveu-se na direção do gatilho. Era reconfortante a quase nenhuma resistência ao movimento. Quase não ouviu o barulho. Suavemente, seu corpo desceu em direção ao chão. Carpete. Sua alma, porém, continuou em queda. Além, muito além dos limites do real.




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Terça-feira, 8 de Maio de 2007

Vida

Ela chegou, rosto corado pela pressa e pela excitação de mais um dia de faculdade.
O caderno, repleto de sua letra ainda adolescente, pulou de suas mãos para a velha estante abarrotada.
O suor escorria por sua pele, ainda tão jovem... Num movimento único, tirou a camiseta e jogou no canto do quarto. Os cabelos negros acariciaram suas costas,e um arrepio involuntário percorreu seu corpo.
Saia, sandália, sutiã, calcinha, meia... tudo pro chão. Correu pro banheiro! A água fria fria lhe fez sentir viva, pulsante. Tinha apenas dezoito anos, a vida inteira pela frente e o mundo aos seus pés. Clichê, mas verdade! Uma maravilhosa verdade.
O cheiro do almoço invadiu seu quarto. Terminou rapidinho o banho. Sabonete, shampoo, condicionador, perfume. Camiseta velha e short larguinho. Voou escada abaixo. Mamãe esperava com a comida prontinha.
Antes de se sentar à mesa, veio à sua mente, como um raio, a lembrança dele... tanto tempo que ele não ligava... uma quase-promessa, uma quase-paixão. Impossível, ela sabia, mas nem por isso menos deliciosa. Ah, se não existissem mulher e casamento na vida dele. Ah, se não existissem irmão ciumento, pai ciumento e mãe ciumenta na vida dela... rs...
Esqueceu com a rapidez característica dos muito jovens. Melhor assim.
O que ela nem suspeitava é que, em sua casa, ele mastigava mecanicamente, sem ao menos perceber o gosto do pedaço de carne. E só pensava em uma menina que acabara de completar dezoito, e que tinha tudo o que ele não tinha: dezoito anos de idade e uma vida inteira à sua frente...

Domingo, 6 de Maio de 2007

Penitência

Veio imediatamente após o barulho. Entrou no quarto e viu o corpo morto do marido, estendido na cama que um dia fora dos dois.
Sangue sobre lençol vermelho. Quase não se via a morte. Apenas adivinhada, a maldita.
O rosto de seu homem continuava plácido como sempre foi. Calmo, tranquilo. Rosto de menino comportado. Apenas um bocadinho mais pálido agora.

Em seu peito, um minúsculo orifício logo abaixo do bolso da camisa. Quase ainda podia ver a vida se esvaindo por ali. Escorrendo lentamente, rego em relva úmida.
A compreensão veio e um grito nasceu em sua garganta.
Enquanto sua voz ecoava pelas paredes do apartamento, no quarto ao lado sua mãe sorria, o cheiro de pólvora ainda quente em seus dedos. Agora podia encarar sua filha nos olhos.

Terça-feira, 24 de Abril de 2007

Primeira Vez

Já tinham lhe falado como seria. Um homem de meia-idade, meio calvo, casado, pai de dois filhos. Não se importava. O que queria mesmo era não ficar pra trás. Todas as suas amiguinhas já tinham tido a primeira vez. É certo que elas já tinham quinze, e ela um par de anos a menos. Mas ainda assim não queria ser a única virgem da turma.
Todas elas já tinham ficado com ele. Generoso, ele. Duzentos reais, fora os presentes. Ela nem fazia questão. Queria saber como era. Queria sentir um pau dentro de si. Queria gozar. Queria saber como era.
A velha senhora que fazia as ligações levou-a até um quartinho no centro da cidade. Segundo andar. Pequeno, mas limpinho. Cama de casal. Nunca se deitara em uma. Tomou um banho e esperou, nua.
Olhou pelo espelho. Seios ainda pequenos, em formação. Nem pêlos tinha ainda. Sentiu um pouquinho de vergonha. Será que ele gostaria?
Barulho de passos na escada!

Ele entrou no quarto, amplamente iluminado. Um arrepio percorreu-a toda. E ela gozou, antes mesmo de vê-lo...

http://adycavalcante.blogspot.com/2007/04/um-homem-de-meia-idade-meio-calvo.html

Segunda-feira, 23 de Abril de 2007

TÉDIO

O relógio parou...
Pra matar o tempo, suicidou-se.

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