quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Maria Maria

Ave Maria, Gratia Plena, Dominus Tecum.
Nascera Maria. Nascera mulher. Quando deu seu primeiro grito nesse mundo, o médico decretou: "É uma menina"!
Sentença cruel essa...
Melhor dizer logo em palavras claras: "Sua filha sofrerá a vida inteira, será sempre mal-remunerada, sofrerá preconceitos, será menosprezada, muitas vezes ridicularizada e ainda assim terá uma missão dura e inglória: perpetuar a espécie humana através da dor e da memória".

Benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui, Iesus.
Crescera em uma favela imunda, lutando contra todo tipo de adversidade: pai bêbado, mãe ausente, irmão bandido, tios... bem, melhor esquecer!
Aos quinze, não havia outra alternativa: ou se prostituía ou virava mulher de traficante. O que no fundo era a mesma coisa. Preferiu ser puta de um homem só. Sem saber se amanhã ele estaria lá. Sem saber se amanhã ela estaria lá.
Sem querer, pôs uma criança no mundo. Mais um. Pra morrer ou virar bandido.

Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus...
Rezara dia e noite pra algum milagre acontecer. Pra seu filho vingar. Pra seu homem não morrer. Mas Deus não ouve. Deus é surdo. Deus não existe.

...nunc, et in hora mortis nostrae.
Aos vinte, não tinha mais marido nem filho. Nem vida que valesse a pena. Se entregou ao meretrício. Sem camisinha e sem esperança. Aos vinte e um, já não era mais Maria. Era poeira vagando entre os jardins. Enfim encontrara sua paz.

Amen.

3 comentários:

Hipacia disse...

Olá! Obrigada pelo comentário. Bonito. E seus textos são bem profundos. Bem densos. Maria e o da menina que cortou os pulsos que mais gostei dos últimos. Muito tempo que não acesso, mas vou ler mais, acho que tem mais que não li. Bem, até mais.

Rafael disse...

Maria é mesmo um nome forte. E, engraçado, tão comum...

Jefferson P. disse...

.. pudera eu encontrar a minha paz!

abrç

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