quinta-feira, 12 de abril de 2007

CAPTURA

A poesia esteve sempre ali. Dentro dele. Presa. Como um sabiá na gaiola. Daqueles que não cantam, não voam, não vivem. Simplesmente existem.
De vez em quando ela surgia, ou ao menos ameaçava. Ao nascer do sol depois de uma noite sem lua. Após o sexo, lânguido e preguiçoso. Ou em momentos (a seu ver) totalmente impróprios pra poesia. Como ontem.
Descia pela rua de cima e notou uma velha casa semi-demolida. A mesma que esteve ali, no mesmo lugar, pelos últimos doze anos. Uma velha casa. Mofo, poeira, escombros e nada mais.E de repente ela veio. Poderosa. Inebriante. A poesia.
Como sempre, ele não soube o que fazer. Tentou respirar, mas o ar lhe faltava. Uma tontura suave e deliciante o possuiu, e ele não teve lábios pra falar nem mãos pra escrever o que alguém lhe ditava lá de dentro. Nem mesmo teve ouvidos pra ouvir. E passados alguns minutos, ela se foi. Deixando aquele mesmo vazio de sempre. Aquela mesma sensação de não ser.
Agora anda com um lápis na orelha. Quando ela aparecer novamente, vai desenhar com versos uma jaula e prendê-la no papel branco. E então finalmente poderá exibí-la a todos.
Pobre Efigênio. Não sabe que vai apenas transportá-la de uma prisão pra outra. E que na prisão ela não cantará. Não sabe que deve libertá-la.
E assim, quem sabe um dia, ela volte. E, saudosa, se entregue docemente em suas mãos vazias de ambições e cadeados.

8 comentários:

Mary disse...

Que lindo!
Blog novo! E eu fui a primeira a comentar! uhuuuuuu! :D

Adorei o moacircaetano todo prosa.
E Efigênio tem que saber apreciar a poesia assim, livre... Simplesmente assim. ;)

Beijossss
Sou sua fã! ;***

Adriádene Cavalcante disse...

Menino insaciável. De onde vem essa sede de expressão? Esse rio transbordante que inunda, mata pequenos vilarejos e faz nascer cidades majestosas de poesia? Fiquei extasiada com esse texto.

marcelo disse...

Mais um espaço lindo... Maravilhoso!
Grande Moacir, só fico imaginando como será o dia em que o engenheiro for assassinado por (ou para) nós e sobreviva apenas, completamente liberto, um apanhador de letras em tempo integral... Abraços enormes!

Saramar disse...

Menino, você é um poema ambulante!
Adorei sua prosa tão linda quanto os versos que já me viciaram.

beijos e sucesso!

Paula Negrão disse...

Moacir agora em parágrafos.
Muito, muito bom mesmo..
Virei sempre aqui assim como faço no seu outro blog.

beijos, querido!

Juliana Pestana disse...

M-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o, Moacir.

Cada palavra desse texto tem todo o gosto e o direito de ser prosa, "toda prosa".

"Quando ela aparecer novamente, vai desenhar com versos uma jaula e prendê-la no papel branco."

Brilhante inspiração. Texto alvo, delicioso.

Bjos meus. Todos encantados.

LuciDo disse...

achas então que não devemos colocar no papel a poesia???
ou será que interpretei errado...
:o

diovvani mendonça disse...

Poesia é um barato que voa.

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