terça-feira, 17 de abril de 2007

O CASACO VERMELHO

O casaco vermelho de sempre!
Já não sabia mais como se livrar dele. Não agora, quando o cheiro dele ainda inundava cada póro, cada vazio do tecido. Não agora, quando ainda hoje encontrava às vezes um pêlo perdido por entre as dobras.
Prometera nunca mais usá-lo. Pois sabia que ele gostava. Pois fora ele quem lhe comprara naquela viagem maravilhosa. E ele adorava quando ela o usava sem absolutamente nada por baixo.
Milhares de vezes prometera acabar com esse casaco. Jogá-lo pela janela. Botar fogo. Rasgar em tiras minúsculas. Sem dó nem piedade. Ou simplesmente entregar pro primeiro necessitado que aparecesse. Mas - claro - nunca cumpria.
Agora mesmo estava enclausurada dentro dele. Andando pelo mesmo parque onde tantas vezes trocaram beijos quase adolescentes.
A esperança de encontrá-lo não existia, mas ainda assim fazia todos os dias o mesmo caminho.

A paisagem nunca mudara. Os mesmos bancos, as mesmas árvores, até o velho coração desenhado no tronco do velho ipê continuava lá. Ali o tempo não se esgotava. Ali o tempo se estendia através dos dias como um relógio preguiçoso. Por isso era tão feliz naquele lugar.
Debaixo daquele coreto o casaco vermelho parecia fazer sentido.
E sua vida também.

13 comentários:

Lou Oliveira disse...

Se vc não fosse apaixonado eu diria que...
Se vc não fosse homem eu diria que...
Se vc não fosse meu eu...

[...está sofrendo]
[... era deus]
[...pedia pra mim]

Amo.

L.

Juliana Marchioretto disse...

e eu nem sabia que aquele blogue era seu! haha.. ô moço criativo!

bjo

LuciDo disse...

E eu que pensava que era apegado a minhas tranqueiras...
:)

Patrícia disse...

Amor, leio tudinho os escritos daqui e os escritos de lá. Só não comento pq sempre acho q os comentários estão medíocres perto dos seus textos. Tenho essas neuras, mas vc me entende, né?
te amo...

marcelo disse...

As pessoas costumam guardar em seus pensamentos e ficam a remoer a parte pior de seus relacionamentos... Prefiro guardar apenas os casacos vermelhos... amo cada um dos amores e amizades que tive, só assim posso amar tanto os relacionamentos que tenho...

moacircaetano, todo prosa! disse...

Grande Brettas!
Pescou direitinho a metáfora dos casacos vermelhos!
Ela não se lembra dos furos que ele tem, nem dos remendos puídos ou das costuras desfeitas.... se lembra apenas do que significou aquele amor!
Abração!

la texana disse...

casacos vermelhos, são sempre os melhores.

Paula Negrão disse...

É assim também com os amores..
(suspiros)
=]

beijos

diovvani mendonça disse...

"Ali o tempo se estendia através dos dias como um relógio preguiçoso." Muito bom!!! AbraçoDasMontanhas.

IsaBellinha disse...

Mais um deleite de Moacir Cateano, adorei!

ahhh, ahhhhh... os casacos vermelhos!


http://www.frenteversos.blogspot.com/

Mais um do lado de cá tb :D
passa lá depois ok!

Rafael disse...

encarcerada dentro de um casaco vermelho, e o casaco vermelho empesteado dela...
por que não?
;]

Saramar disse...

Moacir, confesso que estou em conflito. Entre o Poeta e o contista, não sei o que é melhor. Aliás, mal distinguo um do outro porque em ambos a poesia predomina.
Adorável, sempre.

beijo

Ady Cavalcante disse...

Uau! Acho que fiquei mesmo sem palavras, dessa vez.

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